''Tanabi, 22 novembro 2007.
Jaime, voce vai me fazer tanta falta.
Mesmo que eu nunca tenha tido coragem de falar com voce sobre isso. Mesmo que você tenha sido, até hoje o melhor amigo que ja tive. Mesmo que voce me visse como um ''cara de saias'', como voce mesmo dizia. Mesmo que eu te vesse como o homem da minha vida.
Tá bom, eu só tenho quinze anos. Minha mae disse que ia passar, que essas coisas acontecem e que sao complicadas mesmo. Mas é que, quando eu olhava pra voce, me dava um medo, um frio na barriga. Voce diz que eu te amo e que nao sei viver sem voce, se voce soubesse quantas verdades voce diz nessas brincadeiras.
Na verdade eu tive medo, medo de nao dar em nada.
Medo de dizer o quanto eu gosto de quando agente vai pro betinho duas tres da manha comer lanche e se empanturrar de maionese, falando besteira e dando risada. Medo de ficar vermelha quando voce me abraça na escola. Medo de continuar sentando com voce todas as aulas e deixar voce descobrir tudo. Medo de contar o único segredo que voce ainda nao sabe de mim: eu gosto de voce, Jaime.
Eu 'não dormi mais', pra nao ter que sonhar com aquele dia a-noite no campo de futebol com aquela lua cheia que deixava o céu lindo no aniversario do gustavinho, o dia em que nós rimos choramos, o dia em que voce dividiu comigo seus medos, e eu dividi com voce os meus, o dia em que nós tivemos o nosso primeiro quase-beijo, mais que tudo foi estragado pelo joão neto passando mal nos arbustos. Eu queria te contar que se aquela cena nao tivesse sido tao engraçada eu teria matado ele por estragar nosso dia perfeito. Eu quero nao pensar no modo em que voce me olhava, no seu jeito de mecher as maos enquanto falava, na sua respiração em meus ouvidos, enquanto nós chorava-mos abraçados, e depois naquele seu sorriso torto e sem graça quando tudo ficou em silencio.
Mais sabe, as coisas passam, e se nao passarem, também, eu nao me importo. Eu sei que nao vai passar, por que eu ja me acostumei com essa dor cronica no fundo da alma. E, pra falar a verdade, eu nao tive coragem de jogar aquela caixa fora de jeito nenhum. Nela eu guardo todas as outras coisas que voce me deu, todos os papeis de bombom, os bilhetinhos que nós trocava-mos na aula. Isso eu nunca contei pra você.
Sabe o que eu acho? Que nós dois fomos realmente muito tolos por repetir de ano, e eu ficaria mortalmente arrependida se esse ano nao tivesse sido tão bom. Eu vou sentir falta de nós dois matando aula pra dormir la na biblioteca, de ficar horas na sua casa sem fazer nada. A propósito, eu nunca esqueci do dia que eu dei com nariz na porta de vidro e cai pra traz e voce nem foi me ajudar, ao invéz disso se jogou no chão de tanto rir, eu te odiei naquele momento, principalmente por voce contar aquilo para a turma toda. Mais como se vê, eu logo te perdoei.
Você sabe de todos os meus segredos (quase-quase todos), sabe das minhas trágicas experiencias com meninos, sabe que eu não levo jeito nenhum pra essa coisa de amor, mais eu te amo sabe. Ai ai, sera mesmo que voce só me via como um 'cara' da turma por eu ser a unica menina? Ah, eu vi o brilho nos seus olhos quando eu fingia que estava dormindo aquela noite, voce nao sabe disso tambem, mais eu vi como voce me olhava.
Mesmo que voce esteja indo embora amanhã pra Minas, e que esse meu sentimento bobo nao tenha passado de uma ilusão, eu sei que o que nós sentiamos um pelo outro, era muito além dessa minha paixonite boba, era amor de verdade, amor além do amor de filme e da amizade. E eu me sinto meia feliz por sofrer só agora, por que estou sofrendo, por que voce vai embora, e nao por que voce me decepcionou. E eu quero que voce saiba que eu te amo e vou te amar pra sempre, e mesmo que agente nunca mais se veja de novo, eu vou sempre me lembrar de você, de como voce me mostrou o amor e a amizade.
Acho mesmo que voce nunca vai encontrar essa carta.
Talvez eu nunca a mande. Nao quero te confundir, nem interfirir na sua escolha. Eu nao quero, mais preciso mesmo me conformar.
A vida disse que acaba por aqui. Mas isso só o tempo vai dizer.
Enquanto isso, eu continuo seguindo minha vida, e mesmo que o tempo, o maldito tempo te leve de vez em quando dos meus pensamentos, eu vou te carregar sempre aqui comigo, carregar cada pedacinho dos nossos momentos no meu coração. Por que apesar de tudo, voce vai ser sempre o melhor amigo que ja tive. E eu espero que voce seja, mesmo, muito feliz nessa sua nova vida.
Te adoro Minho.
PS: Para de fumar!
Fran.''
Me peguei mechendo na minha caixa de recordações hoje, lembrando daquele passado bom, dos momentos que vivi, das pequenas coisas que significaram grandes momentos, e que agora ficam no fundo de uma caixa. Achei essa carta no meio de tantas outras que eu escrevi e não mandei, me matei de rir é claro. Mas eu decidi publicar ela por que derrepente me deu uma saudade do Minho, e é claro que tudo aquilo que era pra ser pra sempre não foi. Eu ainda o amo! Só que a paixonite se foi, ficou só aquele amor nostalgico, aquele amor que é pra ser guardado e cultivado e ser lembrado as vezes em dias como hoje.
Nós dois nos vimos algumas vezes, ele ainda vem passar umas ferias ou outras aqui, quando ele vem é sempre aquela festa, continuamos a ir no betinho comer lanche e nos empaturrar de maionese, continuamos a falar nossa frase de guerra 'E ai? Vamo ralar as pintas hoje?' (eu nao vou explicar o que isso significa Uu'), mas sabe, ele amadureceu e eu tambem, e embora ainda dividimos nossos segredos um com o outro quando ele vem, eu sei que agora, as aventuras dele, vem com partes cortadas, e eu me sinto mal por nao fazer mais parte delas. Ele não parou de fumar. E eu. . . pois bem, eu comecei.
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ouvindo: Forever - Papa Roach.

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